segunda-feira, 5 de março de 2007

Paixão pelas páginas

Livraria Mayersche no centro de Colônia, variedade de títulos e preços de dar água na boca





Certamente uma cena que ficará ainda por muito tempo gravada em minha memória é a do dia em que me deparei com um mendigo do Primeiro Mundo. Ele estava sentado, com seu cãozinho básico (aqui na Alemanha o governo dá um incentivo fianceiro para quem tem um cachorro), à sua frente o tradicional potinho de moedas à espera de doações.

Mas este pedinte me chamou a atenção por estar concentradíssimo na leitura de um livro. Quanto requinte! Arrependi de não ter fotografado. Mas acho que nao faltarão oportunidades.

O fato é que a leitura por aqui é mesmo um hábito muito difundido e popular. A ponto de ser assim, surpreendente. Em Bonn, por exemplo, há uma série de bibliotecas a céu aberto onde as pessoas podem trocar livros, sem burocracias ou atendentes. É uma forma simples de maximizar o aproveitamento de um exemplar, qualquer que seja o assunto.

No Brasil, um bom livro custa caro. Na Alemanha, é muito barato. Quando entro numa livraria aqui, preciso me controlar. Primeiro porque elas são gigantes, mesmo nas cidades menores como Bonn que tem cerca de 300 mil habitantes. Megastores com cinco andares inteiros sobre todos os assuntos. Da culinária moçambicana, passando palas belas artes até os tópicos mais inacreditáveis da auto-ajuda.


Espaço interno da Mayersche - muitos andares, vários assuntos






O triste é nao saber alemão a ponto de ler a biografia do Bill Clinton, que custa a bagatela de 7,95 euros! A vida de Nelson Mandela, em papel de alta qualidade e fotos coloridas, também é negociada a baixo custo, 4,95 euros. Eu, que adoro biografias, quase me mordo. Me coço inteira! Na verdade, tenho ímpetos de comprar - mesmo sabendo que sequer conseguirei transportar essas preciosidades para a terrinha, quiçá degustá-las!

Uma publicação que me deixou babando de curiosidade é uma espécie de Brigit Jones às avessas que vi com várias pessoas. É sobre homens de 30 que se sentem encalhados, mas parece que o texto é descontraído. Assim disse um alemão que conheci no avião. Vê se um dia eu iria imaginar uma coisa dessas? Queria muito poder ler essa pérola.

As livrarias vivem lotadas, mais parecem formigueiros. É uma luta para acessar as prateleiras, principalmente nos fins de semana. E eles saem das lojas com sacolas e mais sacolas, abarrotadas de cultura. Assim, aproveitam o tempo livre ou o tempo morto no metrô ou em alguma fila. Mas não é uma ou outra pessoa lendo no trem, é coisa de 80% dos passageiros. Lêem jornais, revistas, livros, folhetos!

No início, estranhei um pouco, agora já entrei no clima e não saio mais de casa sem colocar na bolsa minha merenda intelectual. Nessa onda, conheci a obra do fantástico Ernesto Sábato. O delicioso "Sobre heróis e tumbas", que foi considerado o melhor romance argentino do século XX, transformou minhas viagens Bonn-Colônia em história de amor e aula de espanhol. No momento, estou em pleno tour pela Alemanha, lendo um perfil com dados da economia e fatos históricos. Estou adorando também. Depois faço a resenha para vocês.

Links relacionados:
Matéria sobre os desabrigados na Alemanha que traduzi para a DW Online - http://www.dw-world.de/dw/article/0,2144,2199662,00.html;
Matéria que fiz para a DW Online sobre as bibliotecas abertas em Bonn - http://www.dw-world.de/dw/article/0,2144,2240337,00.html

2 comentários:

Denise disse...

Adorei o texto, Cris! Realmente, le-se muito aqui na Alemanha. Eu comprei tantos livros que tive que envia-los pelo correio, senao nao caberiam na minha mala!
Beijos!

Denise disse...

Ah, e eu nao sabia dessa historia de incentivo para quem tem cachorros! Que viagem!